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Gospel, Mídia e Mercado

Há uma série de questões extremamente delicadas quando se aborda a situação da música “gospel” no Brasil. De fato, ela fica majoritariamente restrita e segmentada a pessoas que professam crença semelhante ao que as letras abordam. Sobretudo, esta segmentação excessiva refere-se principalmente aos grupos de louvor e adoração, estilo que por si só tem em essência ser direcionado ao público evangélico.

A confusão começa porque o termo “gospel” – a boa nova – é usado para abranger uma infinidade de estilos musicais: rock, pop, metal, country, hip-hop, adoração, soul, R&B, etc. Em suma, o “gospel” caracteriza não só a influência direta da música cristã negra dos Estados Unidos, onde nasceu o termo e suas características, como principalmente refere-se a artistas que têm como eixo comum o fato de falar de Deus em suas letras e manter posturas espirituais, professando sua fé.

A matéria “A Espera De Um Milagre”, veiculada na revista Rolling Stone do mês de outubro/2008, analisa o “fim do gospel”, ou, como a tentativa de grupos de pop/rock saírem da segmentação de público foi mal-sucedida, tendo, segundo o autor, Filipe Albuquerque, perdido espaço para a música de adoração. Nos 20 anos do “rock gospel” – o termo é uma convenção – estas bandas estariam estagnadas e tocando para o mesmo público que sempre tocaram, além de restringidas, em termos mercadológicos, por grupos de adoração.

Primeiro, há que se lembrar que grupos de louvor não competem no mercado fonográfico com bandas de pop/rock, assim como as últimas não disputam público com as bandas de forró, e assim por diante. Parece óbvio constatar que cada estilo musical tem os seus apreciadores e o público X a quem se dirige. Segundo, que “adoração e louvor” é uma música originária da Igreja, que sempre existiu e tem sua existência independente de qualquer cobertura midiática ou sucesso comercial. Não só no segmento de “música gospel” – que é o terceiro mais consumido no Brasil, segundo a Associação Brasileira de Produtores de Disco – mas no mercado como um todo, é extremamente natural que determinado estilo experimente fases de maior êxito e evidência, sendo substituído posteriormente por outra “onda” e assim por diante. Esta é uma dinâmica básica do mercado musical desde os seus primórdios.

Contudo, há bandas que ultrapassam esta barreira e sobrevivem independente de modismos e fluxos do mercado. Como o Oficina G3. Em 20 anos de carreira a banda se manteve estável e produtiva. Fato é que as restrições de público existem, e tem levado ao fim ou à estagnação muitos grupos de qualidade.

Para ultrapassar as barreiras da igreja, no entanto, não parece ser suficiente uma qualidade musical comprovada, ancorada por anos de trabalho e reconhecimento da crítica. O preconceito inerente à música que fala de Deus (automaticamente já vista com “maus olhos”, “brega”, ridicularizada e diminuída) é constante na mídia, que parece ser incapaz de, ela própria, analisar as coisas com isenção.

A única maneira de lutar contra isso é seguir trabalhando com competência, profissionalismo e qualidade. Felizmente, assumimos postura transparente desde o começo e o reconhecimento das composições veio de modo natural. Elucidar alguns pontos obscuros parece ser parte importante do processo. Transitar sobre esta linha tênue e complexa não é tarefa fácil. Nossas saudações a todos que conseguem.

Com limitações, com preconceito ou não, continuaremos levando o nosso trabalho com o maior empenho possível para todo aquele que quiser ouvir. Novos ou antigos, o nosso muito obrigado a quem sempre nos acompanhou.

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